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domingo, 17 de junho de 2012

Cachorros difíceis valem mais a pena?

O jornalista americano John Grogan está há dezoito semanas na lista de mais vendidos de VEJA com Marley & Eu. Com 140.000 exemplares vendidos no Brasil, o livro é uma bem-humorada crônica da convivência de Grogan com um cão labrador. Nesta entrevista, ele explica por que a ligação com os cães é tão especial. (Matéria publicada em 2007)


O QUE HÁ DE TÃO INTERESSANTE NO SEU CACHORRO QUE EXPLIQUE O SUCESSO DO LIVRO? Marley & Eu não é apenas sobre um cachorro. É a história da relação desse cachorro com uma família. O livro mostra como um cão mudou a vida de um jovem casal e, mais tarde, dos seus filhos pequenos. Os leitores se identificam com isso. Recebo cartas e e-mails do mundo todo, inclusive do Brasil. São pessoas que viveram histórias muito parecidas com aquela que eu relato. Isso talvez explique o sucesso. O livro fala de uma experiência que muitas pessoas já tiveram: ter um cachorro que tocou sua vida.

QUE ESPÉCIE DE LIGAÇÃO EXISTE ENTRE AS PESSOAS E OS CÃES? É uma relação muito básica. Não há complicações, discussões, melindres. É uma ligação pura, que vem do coração. Um apego emocional.

MARLEY DESTRUÍA MÓVEIS, OBJETOS DA CASA. QUANTO CUSTOU TER UM CACHORRO TÃO BAGUNCEIRO? Não cheguei a fazer a conta na ponta do lápis. Mas, como estimativa geral, Marley deve ter custado algo na casa de 3 000 a 4 000 dólares por ano, contando comida, gastos com veterinário e medicamentos, além da destruição que ele provocava. Muitas das coisas que ele destruía eu mesmo consertava. Ele gostava de cavoucar as paredes, o que apurou as minhas habilidades de pedreiro amador. Esses remendos não custavam muito dinheiro, mas consumiam tempo. Ele também estragou itens mais caros, como um sofá e um colchão novo, que ele furou de lado a lado. Agora que o livro se tornou um best-seller, Marley pagou todas as suas dívidas. O prejuízo foi recuperado, e com juros.

IMAGINE QUE VOCÊ NÃO HOUVESSE ESCRITO O LIVRO. VALERIA A PENA TER TIDO O CÃO MESMO ASSIM? Sem dúvida. Marley viveu treze anos conosco. Quando o segundo de nossos três filhos nasceu, estivemos muito perto de abandonar o cachorro. Tínhamos dois bebês pequenos em casa, e Marley continuava destruindo coisas. Dava muito trabalho. Mas não desistimos dele, felizmente. Antes mesmo da sua morte, nos últimos dias de Marley, minha mulher e eu já rememorávamos os treze anos do cachorro com nostalgia. Sabíamos que Marley havia sido uma das melhores experiências de nossa vida.

VOCÊ TEM OUTRO LABRADOR AGORA. QUE TAL O NOVO CACHORRO? É uma fêmea. Eu a chamo de Gracie, a anti-Marley.

POR QUÊ? Gracie é o exato oposto de Marley. Ela é tranqüila, preguiçosa. Quase não faz nada de errado. Eu digo para ela: "Gracie, eu nunca vou escrever um livro sobre você. Você é muito tediosa".

E UM CACHORRO TEDIOSO PERMITE UMA RELAÇÃO TÃO PRÓXIMA QUANTO AQUELA QUE O SENHOR TEVE COM MARLEY? Eu tenho uma teoria: é com os cachorros difíceis que temos uma ligação mais profunda. Somos obrigados a investir tanto de nós mesmos para fazer essa relação funcionar que se torna impossível não ter sentimentos muito intensos por esses animais. Com os cachorros tranqüilos, o investimento pessoal é bem mais leve – nós apenas coexistimos com eles. Eu amo Gracie do fundo do coração, mas Marley era um animal de estimação memorável. Foi o cachorro da minha vida.

O SENHOR ACREDITA QUE UM LIVRO COMO MARLEY & EU PODERIA SER ESCRITO SOBRE UM GATO? Eu diria que não. Não tenho gatos, embora goste deles. De amigos que têm gatos, eu observo que o investimento pessoal que eles exigem é bem menor.

O SENHOR E SUA MULHER, JENNY, COMPRARAM O LABRADOR MARLEY COM A IDÉIA DE QUE CUIDAR DE UM CÃO PODERIA SER UM BOM ENSAIO PARA QUEM DESEJA TER FILHOS. O SENHOR RECOMENDARIA UM CÃO PARA O CASAL COM PLANOS DE AUMENTAR A FAMÍLIA? Com Marley, Jenny e eu tivemos de tomar conta de uma criatura pela primeira vez na nossa vida de casal. Ele dependia de nós para tudo. Isso nos ajudou a desenvolver um senso de responsabilidade importante para quem deseja ter filhos. Mas não recomendo que alguém compre um cão só para treinar seus dons paternais. O mais importante é gostar de cachorros.

QUAL FOI A IMPORTÂNCIA DE MARLEY PARA SEUS TRÊS FILHOS? O melhor presente que um pai pode dar a um filho – afora uma boa educação, é óbvio – é um animal de estimação. O animal ensina lições muito importantes. Ajuda a desenvolver empatia, compaixão e bondade por outros seres. E, quando o animal envelhece, a criança tem a oportunidade de entender a morte num contexto relativamente seguro, sem traumas. O último presente de Marley a nossa família foi este: ele tornou mais clara, para meus filhos, a concepção da morte, a idéia de que a vida é finita. É muito mais fácil para uma criança aprender isso com um cão do que com a morte dos pais ou dos avós. Meu pai morreu cerca de um ano depois de Marley. Meus filhos conseguiram entender melhor a morte do avô graças ao cachorro.

NO LIVRO, O SENHOR DÁ ALGUNS CONSELHOS SOBRE COMO ESCOLHER UM BOM FILHOTE DE CACHORRO – COISAS QUE NÃO SABIA QUANDO COMPROU MARLEY. O SENHOR SEGUIU ESSES PASSOS PARA COMPRAR GRACIE? Sim. Uma das coisas mais importantes ao comprar um cachorro é buscar uma raça que seja compatível com o seu estilo de vida. Diferentes raças têm diferentes personalidades. Também é importante comprar o cão de um criador de qualidade, em quem você confie. Evite os criadores irresponsáveis, que tiram uma ninhada depois da outra para conseguir o máximo de dinheiro possível. E o ideal é encontrar um criador que mantenha os dois pais em sua casa. Se você conhecer o pai e a mãe do seu cãozinho, terá uma boa indicação da personalidade que ele terá. Fizemos isso com Gracie. Funcionou: ela é uma cachorra bem-comportada.

QUAL SERIA A PERSONALIDADE DE UM DONO DE LABRADOR? Se você quer um labrador ou algum cachorro de grande porte, é necessário ter espaço para ele. E é preciso assumir o compromisso de exercitá-lo todos os dias. Se você faz o tipo sedentário, que passa o dia em casa vendo TV, o labrador não é o cachorro certo. Também não é um cachorro para quem trabalha muito e fica fora de casa doze horas por dia. Quando são deixados sozinhos, os labradores muitas vezes desenvolvem problemas de personalidade e se tornam muito destrutivos. Trata-se de animais sociais, que adoram a companhia humana – e por isso são a raça mais popular nos Estados Unidos hoje. Você precisa encontrar a raça que caiba no seu estilo de vida.

ALGUNS DONOS NÃO LEVAM SUA PAIXÃO POR CÃES AO EXTREMO, COM CABELEIREIROS, PERFUMES, ROUPAS? Sim. Eu vejo gente até furando a orelha de seus cães para colocar brincos caros. Em certo sentido, o cachorro pode ser um hobby. Mas é imoral gastar fortunas com um cachorro quando há crianças passando fome. E os cães não exigem nada disso. Eles precisam de comida, de atendimento veterinário regular e de donos que os tratem bem. Algumas pessoas tratam seus cachorros como crianças com pêlos. Podemos amá-los muito, como eu faço, mas eles não são crianças. São animais, e devem ser tratados de acordo.

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