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domingo, 1 de julho de 2012

Veja porque o Buldogue Francês se tornou a raça preferida dos cariocas.

Nos últimos dois anos, aumentou 40% a procura por um filhote de "frenchie" nos canis do Rio, cidade que abriga maior número de cães da raça no país.

RIO - Sofia tem 3 anos, orelhas empinadas, olhos esbugalhados, focinho amassado, rabo enroscado e 12 quilos distribuídos por um corpinho atarracado. De manhã, depois de comer a primeira porção dos 200 gramas diários de ração, caminha na praia. À tarde, seu programa preferido é ver o pôr do sol no Arpoador. Na hora do jantar, costuma dar pinta na varanda do Felice Caffè, em Ipanema, ou na calçada do restaurante Deusimar, no Leblon. Ela é uma típica buldogue “franco-carioca”.
— A Sofia se adaptou ao meu estilo de vida e, de certa forma, cuida de mim: me faz acordar mais cedo, viver o dia, curtir a cidade. Não é cachorra de madame — diz a estilista Teca Sá, sua dona.
De uns tempos para cá, em suas andanças, Sofia e Teca passaram a esbarrar com um buldogue francês a cada esquina.
— A Sofia está na moda! — atesta Teca.

Nos últimos dois anos, a procura por um filhote da raça cresceu 40% no Rio. A cidade já abriga o maior plantel de frenchies, como são chamados, no país: dos 4.727 registrados em 2011, 1.390 são daqui, segundo o relatório anual da Confederação Brasileira de Cinofilia (CBKC). Em São Paulo, segundo colocado, não chegaram a 400.
— Há uma tendência de crescimento da raça, que caiu no gosto popular. É um movimento sazonal: periodicamente, elegem um cão da hora — afirma Marcia Carreira, presidente do Brasil Kennel Club.

O buldogue francês só perde a “hora” no quesito beleza. Exótico, esquisito, estranho, feioso. Sobram “adjetivos” para falar de sua aparência. Os donos insistem em exaltar a beleza interior: a palavra dócil é a primeira usada para definir exemplares da raça.
O ator Paulinho Vilhena conta que o seu Zacarias, um macho tigrado de 2 anos, é ótima companhia e que o escolheu por saber que o buldogue se comporta bem em apartamentos. A pelagem curta, que dispensa escovadas semanais na pet shop, também é vantagem. “Zaca” adora ir à Praia da Macumba, onde tem cumbuca para água de coco na Barraca do Rico.
— Quando paro para olhar o Zaca, fico impressionado: ele é muito charmoso — derrete-se o ator.

Paulinho comprou o cão logo depois que casou com Thaila Ayala. Os três costumam ser flagrados pelos paparazzi no Recreio:
— Andamos juntos para baixo e para cima. O Zaca é um cão que se comunica com os olhos. Às vezes, eu acho que ele vai falar.

A fama tem seu preço: um filhote de buldogue francês de bom pedigree custa, em média, R$ 5 mil. No Mercado Livre, para quem não faz questão de “origem controlada”, há oferta por até R$ 1.900, valor dividido em 12 parcelas. A fêmea é sempre mais cara. O frenchie de pelagem branca com manchas pretas é o mais procurado por quem deseja um cão para, digamos, lazer. O tigrado é o preferido dos criadores. Há ainda o bege, mais raro.
O movimento de compra e venda de animais é intenso, e representa 33% do mercado pet, que movimentou R$ 18 bilhões em 2011, de acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação. É o mesmo montante faturado por todo comércio eletrônico do país no ano passado.
— O crescimento do mercado pet está diretamente ligado à humanização dos cães. No passado, eles moravam no quintal. Hoje, dormem na cama dos donos. Muita gente não tem filho, mas tem um buldogue francês — analisa a veterinária Patricia Maia, sócia do canil Lord’s Staff, que acabou de vender filhotes para as atrizes Regiane Alves e Isis Valverde.
A Suelen de “Avenida Brasil” chama Abá, de 2 meses, de “bebê”:
— Os frenchies são engraçados por natureza. Apaixonantes.

A paixão, porém, não pode cegar os candidatos a dono de buldogue francês. Patricia Maia ressalta que diante do boom, tem muita gente querendo vender “gato por lebre”:
— Há criadores que só pensam em dinheiro e fazem cruzamentos sem se preocupar com o padrão e com doenças que podem ser transmitidas das mães para os filhotes.
Sócio do Lord’s Staff, que guarda 17 cachorros adultos e 12 filhotes em Jacarepaguá, o adestrador Daniel Cantero está mais preocupado com a segurança dos bichos:
— Nos últimos meses, pelo menos três canis de buldogue francês foram assaltados em Jacarepaguá. Eles valem ouro. Não abro a porta para nenhum desconhecido — conta ele, que só recebeu a Revista O GLOBO depois de confirmar a existência da equipe na redação.

A restauradora Camilla Ottati comprou Luna há cinco anos, antes da raça virar febre, por R$ 1 mil:
— Luna parece que foi educada na Sorbonne. Já tive boxer e weimaraner, mas nunca fui tão feliz. Ela é uma fábrica de carinho.
Mas não tem defeito?
— Ela ronca muito — conta.
A restauradora leu “Adestramento inteligente”, de Alexandre Rossi, para entender a educação canina:
— Todo mundo deveria ter um cachorro antes de ter um filho. É um exercício. Espero que eu seja tão bem-sucedida na educação da minha filha quanto fui na da Luna.
Durante a sessão de fotos, Luna deu menos trabalho do que a filha de Camilla, a pequena Ceci, de 1 ano e 9 meses.
— A Ceci tem mais ciúmes da Luna do que vice-versa — diz Camilla, que já passou da fase de ficar brava quando as pessoas chamam sua Luna de “feia” ou “esquisita” na rua. — Agora eu já acho graça. Aprendi que o buldogue francês é do tipo ame ou odeie. Eu amo.

Exímio esteta, o cirurgião plástico Paulo Muller prefere classificar a raça como “simpática”. Ele é dono de Branca, uma serelepe "frenchie" de 5 anos, que ganhou de presente de uma cliente.
— O buldogue francês é tão diferente que fica bonito.

Branca vive correndo entre as obras de arte do apartamento, late para a sua réplica dourada (sim, há uma escultura de buldogue francês na sala) e adora ficar na janela vendo o movimento da Praia de Copacabana no colo de sua babá (sim, ela tem uma babá). Pretendentes não faltavam, mas o cirurgião preferiu castrar a cadela.

A vida sexual e a gravidez são capítulos complicados na vida do buldogue francês. Atualmente, 90% das gestações acontecem por inseminação artificial: por causa de problemas respiratórios congênitos, há chances de os machos terem um ataque cardíaco no ato do acasalamento. Ou seja, o buldogues francês é um cão essencialmente virgem. Que nasce por cesariana: a cabeça do filhote é grande e dificulta o parto normal.
É assim que funciona no Direnna’s, eleito o melhor canil da raça pela CBKC, com fila de espera de 90 interessados em comprar um filhote. A decoradora Roberta Direnna, que cria 35 cães numa chácara em Maricá, importou uma matilha para aprimorar a linhagem no Rio.
— Eles não têm qualquer traço de agressividade. Qualquer um que entra em casa vira amigo de infância do buldogue francês — analisa a decoradora, que na década de 90 criou yorkshire, passou anos com lhasa apso e cocker spaniel inglês até se encantar com os buldogues franceses, em 2002.

Nos idos de 1880, o buldogue francês começou a ser criado por açougueiros de Paris para caçar ratos. Logo virou o favorito dos comerciantes e das prostitutas. O cão Bouboule, de Madame Palmyre, ficou imortalizado nas telas de Toulouse-Lautrec. Americanos endinheirados que passavam férias na França também se apaixonaram pelos orelhudos, originários do cruzamento de buldogue inglês com pug ou boston terrier. Após a Primeira Guerra, a popularidade da raça declinou. Em 1960, chegou-se a decretar sua extinção. Três décadas depois, o Frech Bulldog Club of America começou a ensaiar a volta por cima. No início dos anos 2000, enfim, virou febre nas ruas de Nova York.

Um dos primeiros donos de um "frenchie" no Rio, o diretor de teatro Claudio Botelho conheceu a raça em 2001, numa viagem para pesquisas musicais na Broadway.
— Vi o cão pela primeira vez numa praça do Soho e saí correndo atrás do dono. Cheguei no Rio e achei um único criador.

Hoje, Claudio possui três fêmeas, e Charles Möeller, seu parceiro nos musicais e vizinho de porta, três machos. São eles: Sofia, de 11 anos, Tião, de 10, Joaquim e Nina, de 5, e Laura e Rocco, de 3.
— Nossos cães cruzaram (por inseminação artificial) e tiveram filhotes. Um deles é a Florence, que vive com a Marília Pêra. Os pais da Florence são a Nina e o Joaquim — conta Claudio.

Joaquim é um nome comum entre os buldogues cariocas. O designer André Vianna também batizou o seu cão, de 3 anos, assim.
— Quando o vi na vitrine de um pet shop, comprei na hora. Ele já tinha cara de Joaquim — conta. — Dois meses depois, descobri que ele tinha sarna demodécia, mas não tive coragem de devolvê-lo. Já era o meu filho temperamental.


Para evitar problemas de pele, comuns à raça, o casal Ana Paula Rondinelle e Felipe Almeida alimenta a pequena Matilde, de 11 meses, com ração de salmão. A pelagem preta é um brilho só.
— A Matilde é o maior sucesso no Instagram — conta Ana Paula, que coleciona fotos da cachorra no iPhone. — É maravilhoso chegar em casa e ter a Matilde à nossa espera. Essa raça gosta mais de gente que de outros cães.

Claudio Botelho conta que duas filhas de seus frenchies brigam com a metade dos cães do Leblon:
— Eles têm muita personalidade. Não gostam de outros cães, mas amam gente. Acho que a raça caiu nas graças pela simpatia com os humanos. E são lindos, né? Todo mundo quer ter um desses monstrinhos.


                                                         Fonte: jornal O Globo e Caderno Ela Digital.

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